A minha Passagem de Ano no Japão!


Quando soube que ia estar no Japão na passagem de ano fiquei assim um bocadinho para o histérica! No país dos fogos de artifício de proporções épicas, esta noite tinha de ser de arromba, não é? 

Escolhemos estrategicamente o nosso itinerário de férias de forma a estarmos em Tóquio na passagem de ano, pagámos uma pequena fortuna (so to speak...) por um hotel manhoso porque não sabíamos que nesta noite os comboios funcionavam 24h, e mal pousámos as malas fizemo-nos à estrada. Mas não sem antes perguntar no hotel de onde podíamos assistir aos maiores fogos de artifício da cidade. A resposta chocou-me. Não havia fogo de artifício em Tóquio. Oi? Desculpem? Como não? Não contente com a resposta tentámos encontrar um posto de turismo aberto (missão impossível) e, à falta de melhor, entrámos noutro hotel e perguntámos por estas mesmas informações que, mais uma vez, levantaram alguma estranheza e obrigaram a uma pesquisa no Google. Só havia um fogo de artifício numa ilha da baía, e na Disneyland, que era capaz de dar para ver da dita ilha também. Ou isso, ou íamos de volta para Yokohama, que lá ia haver um, mas que não devia ser nada de espantoso.

Confesso que a desilusão se abateu um pouco sobre mim. Como podia não haver fogo de artifício na passagem de ano? Nem sequer me parecia uma opção viável! Mas depois de uma breve pesquisa (também no Google), finalmente percebi: no Japão, a passagem de ano tem uma parte espiritual muito importante. 

Para eles a transição para o novo ano funciona mais ou menos como o Natal para os católicos. Fecham-se muitas das lojas e atracções, junta-se a família, fazem-se as limpezas profundas anuais, e iniciam-se as tradições de entrada no novo ano - que, convenhamos, começou no início do mês de dezembro com o (ou os vários) bonenkai - a festa do 'beber para esquecer'. 

Claro que, os japoneses gostam de uma boa festa, ok? Se não ainda vão ficar para aí a achar que eles são todos uma seca, e não é verdade. Nesta noite há festas de arromba em hotéis, em discotecas, em bares, etc., que estão esgotadíssimas com meses de antecedência. E é vê-los na rua aos magotes todos bem aperaltados para começarem o novo ano em grande estilo!

Mas nós optámos pela versão mais tradicional. Já que não havia fogo de artifício e não, queríamos experienciar esta passagem de ano de acordo com os costumes mais antigos. E é sobre isso que vos vou falar a seguir.


Primeiro o jantar. No jantar que antecede a passagem de ano não se come uma coisa qualquer. Neste dia, a tradição manda comer soba. E o que é isso? Basicamente é uma espécie de noodles, feitos de trigo sarraceno. Os noodles são bem compridos, por isso a soba representa a longevidade e todo o japonês que se preze e anseie por uma vida longa, come uma pratada de soba ao jantar (ou às vezes um pouco mais tarde, próximo da meia-noite. Porque sim, os japoneses estão sempre a comer!). Nós encontrámos uma pequena tasca, literalmente, onde comemos que nem uns lordes! A soba de tempura dele e a minha soba de caril estavam deliciosas e ficámos com o estômago bem aconchegado para os quilómetros que ainda tínhamos de percorrer até ao nosso destino final.


E o nosso destino final era o Templo de Zojoji, bem ao pé da Tokyo Tower. Porque o destino de muitos japoneses nesta noite são os templos espalhados pela cidade. É lá que acontecem as orações, que tudo o que resultou das limpezas profundas anuais é queimado numa fogueira enorme,  e que acontecem as 108 badaladas - que duram quase 1h30!! - e representam a purificação dos 108 desejos mundanos, segundo o Budismo.

Mas o ambiente é de festa! As dezenas de barraquinhas montadas em volta do templo animam o ambiente e deixam um cheirinho divinalmente bom no ar, as luzes são lindas e a alegria das pessoas que anseiam pela passagem do ano é contagiante.


À meia noite foram largadas centenas de balões brancos ao pé da Tokyo Tower que contrastavam com o escuro da noite e assinalavam a chegada do novo ano, aquele livro em branco que todos estavam preparados para começar a escrever. Começaram a ouvir-se as badaladas. Não sei se é costume ou se eles aproveitam a presença de milhares de turistas, mas cada badalada é dada por seis pessoas, por indicação dos monges, em intervalos constantes. É um espectáculo engraçado e as pessoas ficam visivelmente felizes por poderem fazê-lo! Nós tivémos de optar entre ir para essa fila ou para a fila para fazer a primeira visita ao templo do novo ano, e acabámos por escolher a segunda opção.

E ainda bem que o fizémos! Se à nossa frente achávamos que estava um batalhão de pessoas, atrás de nós a quantidade de gente era ainda maior! Como sempre, tudo mega organizado, e ao fim de uns 40 minutos estávamos a entrar no Zojoji.

Lá dentro, pedem-se os desejos para o ano que acabou de chegar. A tradição manda atirar uma moeda (ou, aqueles mais ansiosos e que querem que os desejos se realizem mais depressa, até mandam é notas), bater duas palmas e pedir um desejo. Depois de vermos como os locais faziam, chegou a nossa vez e lá fizémos todo o ritual a preceito.


Depois disto voltámos felizes para o hotel. Confesso que foi uma das melhores passagens de ano de sempre. Especialmente porque, pela primeira vez em séculos, tive tempo para pensar no ano que tinha passado, e em todas as coisas boas que me trouxe, e para entrar neste 2016 cheia de energia, motivação e inspiração. Este lado espiritual deu-me uma tranquilidade redobrada para abraçar os projetos que espero neste novo ano e para me encher de coragem para tomar as decisões menos fáceis, mas muito necessárias!

E vocês, ficaram tão surpreendidos como eu, ou já sabiam que a passagem de ano por aqui era bem mais tranquila? Se sim, acho mal não me terem dito nada que eu fiquei mesmo abalada por momentos... Mas pronto, eu desculpo-vos tudo, sim?


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28 comentários

  1. Oh Catarina, que belo relato! Não fazia ideia que era assim, mas parece tão boa - e tão refrescante e motivadora! E as tuas fotos, miss, estão lindas!

    Jiji

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    1. Muito obrigada Joaninha :) Foi óptima, muito especial mas, mais do que isso, muito focada em mim própria e, só eu sei o quanto estava a precisar disso :) Aiii com esses elogios todos ainda vou ficar convencida :p *

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  2. ADOREI ler o teu post... E deixa-me dizer-te que também ficaria super desiludida. Quando li "A minha passagem do Ano no Japão" pensei logo que irias partilhar imagens fantásticas do fogo de artifício, mas não... Mas parece-me que, em todo o caso, foi uma passagem diferente, única, que te despertou para novos caminhos a ser trilhados neste novo ano... Estou contigo :)

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    1. Ahahah Maura, a desilusão so durou 1h, no máximo! Depois deixei-me entrar no espírito e adorei o resultado: uma passagem de ano diferente, cheia de significado e em excelente companhia :) Beijinhooos*

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  3. Pensei automaticamente numa grande festa cheia de fogo de artifício! Como assim não há fogo de artifício? Grande choque.

    Gostei muito do post, Catarina. Admiro a tua coragem de teres ido para o Japão. Eu cá, mesmo que gostasse muito de o visitar, não me imagino a viver por lá. Viver no meio de uma cultura assim tão diferente da minha ia ser um desafio que não sei se conseguiria superar. Mais ainda, se apanhasse uma passagem de ano assim acho que ficava devastada tamanha era a desilusão. Mas enfim, ainda bem que acabaste por conseguir ter uma noite divertida :) Beijinhos

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    1. Ahahah Catarina, a passagem de ano foi maravilhosa, mesmo sem fogo de artifício! As pessoas estavam eufóricas e acho que é isso que acaba por tornar o dia numa grande festa :)

      Olha, quando aterrei pensei 'no que é que me vim meter?', mas a diferença cultural só é agravada substancialmente por causa da língua. Tudo o resto me dá um prazer enorme aprender e explorar. E eles fazem de tudo para te conseguir ajudar e não ficam minimamente ofendidos por não saberes a língua deles (como acontece nalguns países...). Gosto mesmo de estar aqui e vou ter imensas saudades deste país maravilhoso quando voltar para Portugal (mas também já tenho saudades de casa, óbvio!). Beijinhos*

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  4. Pronto também fiquei feliz e triste por ti! Triste por não ter os fogos de artifício e feliz por ter sido um reveillon diferente, especial e maravilhoso! Bastante mais significativo e introspectivo, com um momento de oração e reflexão de que tanto precisamos e nem sempre o fazemos.
    Adorei a tua reportagem sobre este evento aí no Japão! Um grande beijinho!

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    1. Obrigada minha querida Clênia :) Foi, sem dúvida, uma passagem de ano diferente, mas da qual estava mesmo a precisar (mesmo que não o soubesse ainda :p). Adorei estar mais focada em mim e nos meus pensamentos, naquilo que quero para mim e para os meus neste novo ano :) Beijinhos* (e bem-vinda de volta! Tive saudades :) )

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  5. Gostei muito do post, bem interessantes as diferenças culturais no Japão =)

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    1. Obrigada Inês! Espero que, pelo menos, tenha dado para aguçar a curiosidade em relação ao Japão :) *

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  6. Não conhecia a tradição! Não estava mesmo nada à espera deste relato (imaginava mais imenso fogo-de-artifício, claro está). Mas é tão mais interessante! E entendo quando dizes que te permitiu reflectir mais do que as tradicionais passagens de ano, visto que é um ritual longo, com tantos momentos diferentes. Admito que fiquei com muito mais curiosidade pela passagem de ano no Japão, já vai ficar para planos futuros! É mesmo diferente da nossa tradição e gosto disso.

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    1. Percebo-te perfeitamente Ana :) acho que é mesmo um evento que se deve experienciar pelo menos uma vez na vida. Foi um dia, e um momento, muito especial para mim e adorei poder vivê-la em primeira mão e, mesmo sem saber, no exacto momento em que precisava dela :) Beijinhos*

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  7. As fotografias estão lindas lindas lindas! A sério, fiquei mesmo vidrada.
    O meu João também já teve a sorte de passar a passagem de ano em Tokyo e também diz que foi das melhores passagens de ano de sempre. Relata precisamente o mesmo que tu, mais que uma festa um ritual muito espiritual.
    Pelo relato dele e agora pelo teu, é óbvio que fico com o bicinho :)

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    1. Aiii Ana, se o João já cá esteve sozinho, agora é a vez de virem os dois! Vais amar :) e se vieres na passagem de ano prepara-te para teres muitas coisas fechadas, mas uma entrada no novo ano inesquecível :) *

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  8. Wow! Que máximo não fazia ideia que era assim, deve ter sido incrível =)

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    1. Foi mesmo muito boa Jessica :) e como também foi uma novidade para mim, as expectativas não eram muitas, e acabei por conseguir viver o momento em pleno (depois de reclamar quase 1h por não haver fogo-de-artifício :p) *

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  9. Que passagem de ano do caraças, Cat! Adorei o teu relato :D

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    1. Um dia vens visitar o país que foi a minha casa durante estes meses, e quem sabe tenhas a sorte de passar a passagem de ano por aqui também :) *

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  10. A última foto está um espectáculo! Eu esperei por lanternas a serem lançadas ;) Eu espero sinceramente ir um dia ao japão, até porque a primavera deve ser uma das estações mais bonitas por aquilo que tenho ouvido falar através dos amigos. Tens uma sorte Ana! um beijão

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    1. Margarida, o Japão é lindo em qualquer altura do ano! Mesmo! Mas as estações de transição, a primavera e o outono, têm um encanto especial :) Não houve lanternas a serem lançadas, mas houve balões brancos. Também é bonito :) e obrigada pelo elogio :) Estava um bocadinho medrosa que as pessoas reclamassem com as fotos, mas afinal foi tranquilo :p *

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  11. Que lindo. Adorei o teu post! E fez-me tanto querer voltar ao Japão......! E agora que descobri o teu blog, vou espreitar (mais afogar-me) nos teus outros posts todos!

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    1. Aiii Akane, isso vindo de ti diz-me ainda mais :) Eu não sou de cá, mas viver aqui já fez com que o Japão ficasse com um pedacinho grande do meu coração e vou ter de cá voltar muitas vezes ao longo da minha vida! Espero que gostes muuuuuito do resto :) *

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  12. Também não fazia ideia... E anda meio mundo enganado...

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    1. Ahahaha por alguns instantes, enquanto escrevia este post, pensei mesmo que era só ignorância minha, mas felizmente não fui a única a ficar surpreendida :p nem tanto, que Tóquio estava cheio de turistas na passagem de ano, mas enquanto andar muita gente enganada, o ritual é mais verdadeiro, por isso é deixá-los andar ahahaha *

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  13. Awww deve ter sido tão bonito e especial, Catarina! Uma experiência do outro mundo, verdadeiramente. Confesso que também achei que eles tinham uma festa com imenso fogo de artifício mas depois de ler este teu post faz todo o sentido que assim [não] seja. Eu adoro o espectáculo de fogo de artifício mas acho que na próxima passagem de ano devia pensar em fazer algo assim...mais espiritual! Uma limpeza ao espirito e à mente! Às vezes também é preciso! O esses balões brancos todos no céu deve ter sido de arrepiar de tão puro e bonito, verdade? Um grande beijinho e continua, por favor, a partilhar a tua visão do Japão 💕

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    1. Foi lindíssimo Sara! E foi, sem dúvida, muito especial! Eu sou louca por fogo-de-artifício, por isso imagina os primeiros instantes de desilusão. Quase tive vontade de ir para sidney :p ahaha mas depois de aceitar inteiramente o inevitável, tornou-se exactamente naquilo que precisava :) *

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  14. Que lindo mesmo <3 Eu - que não sou de grandes festas - amava experienciar uma passagem de ano dessas, muito mais espiritual. Estou como a Cabido, na próxima vou tentar pensar mais em tudo o que me tem acontecido :)

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    1. É mesmo Helena :) quem sabe não tens a oportunidade de um dia vir cá passar a passagem de ano! Esse também é um exercício que vou tentar fazer a partir de agora, sempre. Foi tão bom para começar o ano mais motivada e mais feliz do que nunca :) *

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