Coisas que a investigação me ensinou



Toda a vida sonhei que queria ir para investigação (pelo menos desde que me lembro de mim própria), ainda mal eu sabia que áreas o permitiam e o que de bom se fazia em Portugal (e no resto do mundo) neste campo.

Durante uns tempos quis seguir Medicina, mas cedo cheguei à conclusão que para se ser investigador não era preciso tirar um curso de 6 anos + todos os outros que sejam precisos até concluírem que estás pronto para ser investigador. Então escolhi Biologia. Nunca fui uma aluna brilhante, e apesar dos cadernos sempre perfeitos e dos apontamentos escrupulosos, sabia que o tempo que dedicava aos cadernos e apontamentos era tempo a menos que dedicava ao estudo propriamente dito.

Mas fiz o curso, candidatei-me a um mestrado fora da faculdade onde tirei o curso e segui viagem para a área que me entusiasmava na altura (e em relação à qual ainda mantenho um certo carinho), a bioremediação. Sim, um palavrão que basicamente significa que estamos a estudar maneiras de usar organismos vivos para degradar compostos químicos como herbicidas, fungicidas, e tudo o que possa comprometer gravemente a saúde do nosso meio ambiente. Estive nesta área durante 2 anos, mas devido a falta de financiamento e alguns problemas pessoais, acabei por mudar de área de especialização (seja lá isso o que for).

Tenho noção que a maioria das pessoas acha que um mestrado, mais ainda um doutoramento, comprometem gravemente as suas escolhas, no sentido em que teremos de trabalhar para sempre na mesma área. Nada poderia estar mais errado. Quem sabe fazer investigação e tem experiência em determinada competência como biologia molecular, proteómica, metabolómica, etc., pode fazer investigação em qualquer organismo e para qualquer fim. Neste momento estou há 5 anos a trabalhar com o mesmo organismo, com o mesmo fim, mas as abordagens e os pequenos desvios durante o caminho permitiram-me aprender imensas técnicas e, se no início me sentia insegura a dar dicas a alguém, neste momento sinto-me muito mais confiante. Conheço os tempos de duplicação e conheço o comportamento geral da ‘minha bicheza’, como gosto carinhosamente de lhe chamar. Mas ainda que mude de organismo, conseguirei ganhar com ele a confiança que tenho hoje naquele que estudo.

Bom, tudo isto para dizer que sou investigadora há 7 anos. E nestes 7 anos aprendi muita coisa.

Aprendi a ser mais persistente. Cada experiência é repetida no mínimo três vezes. E quando digo no mínimo é porque na maior parte das vezes, até termos resultados reprodutíveis e com uma variação reduzida entre eles, é preciso repeti-las over and over again. Por isso é preciso insistir, não perder a motivação e continuar a repetir até estarmos satisfeitos com os resultados obtidos.

Aprendi a lidar melhor com a frustração. Nem sempre os resultados são os esperados e por isso tempos de partir para outra. E muitas vezes o utilizador (ou seja, eu mesma) fazemos asneiras em protocolos de 3 ou 4 horas, mesmo nos últimos passos e damos cabo de uma experiência inteira. Ou não fazemos asneira nenhuma e o resultado final é uma desilusão. E isso é muito frustrante. Dá cabo de nós! E, infelizmente, estas coisas acontecem-nos mais vezes do que aquelas que gostaríamos. Mas temos de aprender a relativizar os problemas e a seguir em frente, desta vez mais preparados para tudo o que possa correr mal, o que leva a que a maior parte das coisas acabem por correr bem.

Aprendi a ser mais tolerante e a trabalhar melhor em equipa. Nunca temos a verdadeira noção do que é trabalhar em equipa até ao momento em que deixamos de ser nós a controlar quem são os membros da nossa equipa. Até entrarmos no mercado de trabalho raramente trabalhamos com alguém ao acaso. Acabamos por nos juntar àqueles que já conhecemos e, por isso, a probabilidade das coisas correrem mal, é muito mais reduzida. Agora quando nos ‘impingem’ pessoas, com personalidades e maneiras de trabalhar diferentes das nossas, aí sim, temos de aprender a ser tolerantes para que as coisas possam chegar a bom porto. Se não acabamos em discussões intermináveis e em ambientes de trabalho pesadíssimos. E olhem que já me calharam assim umas boas peças, mas felizmente, a maioria são não só boas pessoas como são boas de se trabalhar.

Aprendi a saber separar melhor o trabalho da vida pessoal e vice-versa. Se a vida de investigação está cheia de frustrações, que está, vocês podem bem imaginar que um dia que até estava a correr bem, pode ter o pior desfecho possível, mesmo a horas de ir para casa. Por isso é mesmo importante sabermos separar as coisas para não irmos contaminar o ambiente de casa com esta má disposição. Nem sempre é fácil, especialmente quando estamos cansados e furiosos, mas tem de ser, para o bem de todos. Claro que o contrário também é verdade, mas, a bem da nossa sanidade mental, deverá ser muito menos frequente.

Aprendi a gerir melhor o meu tempo. Dentro e fora do trabalho. Porque é difícil prever o tempo que se perde a fazer determinado protocolo. Há coisas que normalmente demoramos 1h a fazer, mas que em certos dias, dependendo se o material está a ser usado por outros ou se há algum imprevisto, pode demorar 1h30 ou 2h. Por isso é importante saber gerir o tempo e dar tempo extra para se as coisas se atrasarem. E se nos entretantos conseguirmos adiantar mais alguma coisa, óptimo. Também aprendi que os fins-de-semana são dias sagrados, sempre que possível, porque só assim é possível recarregar completamente as baterias. E aprendi que um fim-de-semana dá para fazer muito mais do que eu achava possível antigamente.

Digam lá que ser investigador não ensina algumas coisas mais do que saber mexer numa pipeta e ler protocolos como receitas, hein? E vocês, o que já aprenderam com a vossa experiência no mercado de trabalho?


(Imagem via: Unsplash)

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11 comentários

  1. Concordo plenamente contigo!
    Há 7 anos quando acabei a licenciatura percebi logo que os graus superiores servem para abrir horizontes e não para os limitar!
    Sinto isso com o Mestrado... e quiça não seja exatamente essa ideia, que, depois de um bocadinho de descanso à cabeça, me façam mesmo avançar para o Doutoramento...

    Beijinho,

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  2. Olá,

    Tb eu sou bióloga de formação e dediquei-me a outra area de estudo. Contando com o estagio ja estou nestas andanças a 9 anos. Infelizmente a instabilidade da vida de bolseiro (felizmente smp tive bolsa) levou-me para longe de portugal, onde estou à quase 3anos. Frustração e perseverança sao bem presentes no nosso dia a dia!

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  3. acredito que traga mesmo imensas coisas boas e que te tenham feito crescer e o mais importante é que te sintas feliz e realizada com tudo isso.:)

    http://letrad.blogspot.pt/ - Another Lovely Blog!

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  4. Fico bastante contente com as tuas aprendizagens!! Vejo que és muito aplicada e que ao longo da tua vida tens tido sorte e saúde e principalmente energia e força de vontade!! Eu desejo-te os maiores sucessos,espero que sejas feliz!! Muitos beijinhos,excelente fim-de-semana e tambem excelente mês de Julho,fica bem!!

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  5. Completamente!
    Revejo-me em tudo o que disseste. torna-nos mais fortes.
    é sem duvida uma aprendizagem de vida!

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  6. Eu digo muitas vezes que não dava para esse trabalho, porque simplesmente não tenho paciência. Reconheço-lhe o valor e, como em qualquer área, há pessoas que o fariam de bom grado e há pessoas que são mesmo boas nisso. Não tenho dúvidas que tu serás uma dessas pessoas. :)

    P.S. Obrigada por partilhares connosco aquilo que a Investigação te ensinou!

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  7. Revejo-me em tudo o que escreveste com a minha tese e este último ano! Nem quero imaginar um doutoramento! Muito embora a minha área seja diferente! Adorei o post, tão pessoal :)

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  8. É mesmo verdade :) mas é preciso muita vontade para fazer um doutoramente, pelo tempo que dura e por toda a resiliência necessária para chegar a 'bom porto' :) *

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  9. É mesmo Rita! Espero que tenhas toda a sorte do Mundo :) porque os investigadores, por todo o trabalho e dedicação, bem que a merecem :) *

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  10. Ahahah digo o mesmo em relação a outras áreas :p a verdade é que o que fazemos é muito menos à 'rato de laboratório' do que as pessoas imaginam :) mas continua a ensinar umas quantas lições de vida e para a vida, e isso é que é importante :) *

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  11. Obrigada Catarina :) sim, um doutoramento é uma 'prova de esforço', mas que quando gostas daquilo que fazes vale imenso a pena :) *

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