O meu pai, eu e um filme

Foi no final do mês passado. Procurava saber o que havia de novo a acontecer na cidade de Lisboa. Bati com os olhos naquele nome de que ouço falar há tantos anos. Ingmar Bergman. Uma mostra de cinema do realizador preferido do meu pai, que ainda por cima incluía o seu filme de eleição: Morangos Silvestres. Durante anos achei que aquele filme que o meu pai descrevia ia ser uma seca, mas desta vez achei que valeria a pena e, assim em jeito de presente antecipado do Dia do Pai, ou de dia nenhum, só porque achei que era importante partilhar isto com ele, levei-o (ou terá sido ele que me levou a mim?) a ver o seu filme preferido de todos os tempos, e que já não via desde que era um jovem adulto.

Foi no Nimas, numa sala muito mais cheia do que eu imaginaria (quase esgotada mesmo) que tive o meu primeiro contacto com este realizador. Um filme maravilhoso que conta a história de um médico com 78 anos que vai receber um prémio para celebrar os seus 50 anos de carreira e cuja acção se desenrola quase toda em torno da viagem de carro que ele realiza até ao destino. E, depois, a constatação de que foi um homem frio e de que o filho vai pelo mesmo caminho. Que a sua vida na realidade foi cheia de nada. Que amou uma única vez e que esse amor não foi correspondido. E é este velhote rezingão que aconselha a sua nora, que enternece os jovens que com ele se cruzam e que tira do sério a sua governanta. É este velhote assustado com a proximidade da morte que vê passar a vida, em filme, diante dos seus olhos.

É um filme de 1957 (ainda a preto e branco), mas cujo argumento se adequa perfeitamente aos dias de hoje. Cuja simplicidade e realismo o tornam mais bonito e, às vezes, até incómodo. Sinceramente, entrou já para o top dos meus favoritos. E eu fiquei tão feliz por ter dado esta oportunidade ao ‘filme do meu pai’, e por ele se ter tornado num dos meus preferidos também. E agora quero conhecer mais deste realizador! Obrigada a todas as lojas onde nunca consegui encontrar este DVD, pois de outra forma dificilmente teria visto este filme sentada lado a lado com o meu pai, a partilhar gargalhadas e alguma comoção. E obrigada pai, por me teres mostrado que na tua altura também se faziam coisas tão bonitas, sem mega orçamentos, mas capazes de nos mexer com as emoções e de nos ensinar a viver a vida quando ainda estamos a tempo disso.

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